terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Myrna Loy, a esposa perfeita

Não era a mais bela nem a melhor atriz. Acontece que isto não quer dizer que ela não fosse bonita e talentosa. Estas qualidades, ainda que não acentuadas, garantiram-lhe um lugar em Hollywood. Mas existem tantas belezas e talentos na fábrica de sonhos. O que é que Myrna tinha de especial para ser tão destacada? Há uma resposta:  "Era simpática e fez papéis de mulher perfeita". Claro, essa é a resposta mais segura. Porém, a meu ver, há algo mais. A resposta está nos seus olhos. Aqueles olhos azuis de gatinha são intrigantes, fascinantes. O nariz arrebitado e o ar empertigado captam a atenção. E há o magnetismo. Ela tem algum. Exótica, simpática e talentosa, ela foi oficialmente a "Rainha de Hollywood" junto a Clark Gable, que ocupou o lugar de rei! Ela foi a inigualável Myrna Loy.





Clark Gable é conhecido ainda hoje como o rei. Com Myrna isso já não acontece. Eu penso mesmo que, na altura (anos 30) em que foi nomeada, o título não lhe ficou tão associado como no caso de Gable. Independentemente disso, percebe-se que, se Myrna foi votada pelo público como rainha, é porque era uma estrela com grande número de fãs.





A "coroação" de Calrk Gable e Myrna Loy



Myrna tinha classe, charme, sofisticação e doçura. Não era distante como Grace Kelly. Era próxima como Deborah Kerr. Antes da vinda do cinema sonoro, a diva fez vários filmes para a MGM, onde encarnava o papel de femme fatal, graças ao seu semblante misterioso e exótico.


Certamente que alguma destas fotos dizem respeito a filmes mudos, onde Myrna fez de mulher exótica:








Com a chegada do som, Myrna, assim como a sua eterna amiga Joan Crawford, conseguiu integrar-se maravilhosamente bem nos filmes falados. E é aí que a sua carreira de qualidade começa.






Fez drama e comédia. Fez de má quando era "muda" e de "boa", mas empertigada, quando já falava. A série de filmes The Thin Man (o primeiro é o mais conceituado e foi feito em 1934), onde dividia o estrelado com William Powell, foi das mais bem sucedidas da história. A química entre os dois é fantástica. É a minha dupla favorita da história do cinema. Tanta cumplicidade, tanta diversão, tanto glamour e tanta energia! A série mistura suspense e comédia e não envelheceu em nada. Talvez por não retratar a realidade da época. The Thin Man é uma estilização da vida real.


Outros títulos que merecem destaque são The Great Ziegfeld (1936), também com William Powell (fizeram juntos 18 filmes), e The Rains Came (1939), com Tyrone Power. Aqui, Myrna explora o drama, em vez da comédia e não desilude. No entanto, devo frisar que a sua praia é a comédia com champanhe e vestidos de alta costura.




















Myrna no trailer de The Great Ziegfeld



Nos anos 40, a sua vida profissional foi bem mais parada, pois Myrna concentrou-se em ajudar as tropas americanas durante a 2ª Guerra Mundial. Ela era, de facto, uma mulher muito altruísta.

 Apesar de tudo, foi em 1945,que a atriz realizou o melhor e mais popular filme da sua carreira: The Best Years of Our Lives, de William Wyler. Filme extremamente sensível e envolvente. Um dos grandes da história. E, mais uma vez, ela fez de mulher perfeita. Porém, se em The Thin Man, Myrna era perfeita mas divertida e mimada, em The Best Years of Our Lives é sensível, carinhosa, preocupada, sábia. Perfeita mesmo.






Nunca fez muitos filmes a cores e reparo que a sua beleza nunca foi grandemente explorada. Não há muitos close-ups ao seu rosto nem momentos que existam somente para realçar a sua beleza. Mesmo que Myrna não fosse Garbo, julgo que merecia melhores entradas. Mas como esquecer a maravilhosa, ainda que nada glamorosa, entrada dela em The Thin Man (1934)?






Cena de The Thin Man


 (outra vez com a mesma careta): cena clássica de The Thin Man



Algumas frases que ilustram este maravilhoso ser humano (retiradas do IMDB):

[on her work with William Powell] I never enjoyed my work more than when I worked with William Powell. He was a brilliant actor, a delightful companion, a great friend and, above all, a true gentleman.






I was a homely kid with freckles that came out every spring and stuck on me till Christmas.




[on her "Perfect Wife" label, based on her work in Os melhores Anos das Nossas Vidas(1946)] It was a role no one could live up to, really. No telling where my career would have gone if they hadn't hung that title on me. Labels limit you, because they limit your possibilities. But that's how they think in Hollywood.





[Speaking in the late 1960s] I admire some of the people on the screen today, but most of them look like everybody else. In our day we had individuality. Pictures were more sophisticated. All this nudity is too excessive and it is getting very boring. It will be a shame if it upsets people so much that it brings on the need for censorship. I hate censorship. In the cinema there's no mystery. No privacy. And no sex, either. Most of the sex I've seen on the screen looks like an expression of hostility towards sex.





[Referring to her "perfect wife" typecasting] Some perfect wife I am. I've been married four times, divorced four times, have no children, and can't boil an egg.






I was glamorous because of magicians like George J. FolseyJames Wong HoweOliver MarshRay June, and all those other great cinematographers. I trusted those men and the other experts who made us beautiful. The rest of it I didn't give a damn about. I didn't fuss about my clothes, my lighting, or anything else, but, believe me, some of them did.





[on Barbra Streisand] I think Barbra Streisand is a genius, the creativity she has! And I am very impressed with her as a person. Some years ago I was on the Academy Awards broadcast, she came up to me. I was standing in the wings and Barbra walked across the stage to greet me. Very polite, very nice. You don't find many young women who extend that kind of gracious courtesy to an older woman. Audrey Hepburn does. And Barbra. I've not forgotten how charming she was.





[on William Powell] The later ones [the "Thin Man" pictures] were very bad indeed, but it was always a joy to work with Bill Powell. He was and is a dear friend and, in the early Thin Man films with [director W.S. Van Dyke], we managed to achieve what for those days was an almost pioneering sense of spontaneity.





[on Doris Day] I have nothing but the best to say about Doris Day. She was wonderful to me, really lovely. She sent flowers when I started and remained friendly and attentive. As I've said, it's difficult when you start stepping down. You fight so hard to get to the top and then you realize it's time to gracefully give in a little. Doris, who was riding high then, never played the prima dona. I appreciated her attitude enormously.





[In 1981, on her friend Joan Crawford] Joan and I approached being movie stars in a different way. She liked to take limos everywhere; she was much "grander", for lack of a better word, and maybe I was much more down to earth, but so what? Joan certainly wasn't the only movie star who liked the champagne and limousine treatment. I can tell you that when you made a friend in Joan you had a friend for life. She never forgot your birthday, and you'd get a congratulatory note from her when good things happened in your life. She cared about people and her friends, no matter what anybody says. I liked her, and I miss her, and I think her daughter's stories are pure bunk. Even if they were true, if ever there was a girl who needed a good whack it was spoiled, horrible Christina [Christina Crawford]. Believe me, there were many times I wanted to smack her myself.






“Why does every black person in the movies have to play a servant? How about a black person walking up the steps of a courthouse carrying a briefcase?”






Tinha sentido de humor, era correta, altruísta, contra o racismo e cultivava a amizade e o respeito. Nunca li ou ouvi ninguém a dizer mal de Myrna Loy. Tinha tudo para se armar em vedeta. Bonita, rica e talentosa. Mas não. Nunca fez isso. E talvez por isso seja a Rainha de Hollywood. Talvez porque nunca se armou em tal ou porque nunca desejou ser nenhuma.





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