sexta-feira, 31 de julho de 2015

Elizaberth Taylor, olhos violetas

"A arrebatadora inglesa, Elizabeth Taylor (nascida em 1932), de cabelos negros e olhos verdes, foi uma das últimas estrelas a sair do sistema de estrelas de Hollywood. Aos 11 anos, a MGM fê-la assinar um contrato de 20 anos.
Depois de seu triunfo em National Velvet (1944), ela nunca olhou para trás.
Revelou os seus talentos dramáticos, ganhando dois Óscares, ao mesmo tempo que mantinha os colunistas de mexericos ocupados." (Bergan 2008, 332)

Este texto tem um "erro cromático". Os olhos de Elizabeth eram roxos ou violetas, não verdes



Elizabeth Taylor é daqueles casos em que a perfeição parece materializar-se da forma mais perfeita possível: Beleza, talento, personalidade, tudo misturado harmoniosamente numa das grandes damas do cinema. E, por estranho que pareça, não são fascinado por Taylor. Dos dois filmes que assiste com a estrela, "Um lugar ao Sol" e "Quem tem medo de Virginia Woolf?", gostei de ambos e, se no primeiro a beleza de Elizabeth se sobrepõe ao seu talento, no segundo a sua interpretação é soberba. E, por alguma razão, não consigo ficar fascinado por ela. Assisti, ainda, a "The Mirror's Crack'd" que não é nada de especial e, embora o desempenho da diva seja bom, a sua personagem não é cativante.


Elizabeth é, provavelmente, a mulher morena mais glamorosa do cinema, conseguindo mostrar que não precisava de pintar o cabelo de loiro (que na época era sinónimo de glamour, devido a estrelas como Lana Turner ou Marilyn Monroe) para ser elegantemente sensual. As sobrancelhas grossas também poderiam ser uma desvantagem, mas só lhe conferem personalidade. Um rosto perfeito.





Não é por ser algo raro, mas eu realmente acho olhos cor violeta ou azul escuro lindíssimos. Essa é a marca física de Elizabeth Taylor. Os seus olhos violetas são irresistíveis.












Elizabeth Taylor, assim como Judy Garland, tinha talento para conseguir passar da sua fase de atriz infantil e adolescente para adulta. Fê-lo, ganhou dois óscares, casou sete vezes, era possuidora de uma coleção poderosa de jóias, casou duas vezes com o mesmo homem. Fez tudo e tudo o que fez fez bem.













Citação retirada do livro "Cinema" de Ronald Bergn, de 2008 (o original é de 2006) e editado em Portugal pela Civilização

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Greta Garbo, mistério em forma de diva

"O romance entre o extraordinário rosto de Greta Garbo (1905-1990) e a câmara nunca foi ultrapassado, tornando-a talvez a melhor de todas as lendas femininas do grande ecrã. A sua vida privada e pública tornaram-se inseparáveis; ela era a deusa enigmática que supostamente disse "Quero estar sozinha". Garbo ficou famosa com os seus clássicos papéis trágicos em Rainha Cristina (1933), Anna Karenina (1935) e Margarida Gautier (1937), por isso quando fez Ninotchka (1939) a MGM clamou, "Garbo ri-se!". " (Bergan 2008, 326)



Uma loira de Hitchcock que não é de Hitchcock. Esta é Garbo, considerada por muitos a mais  bela mulher do cinema e, provavelmente, por todos, a mais enigmática. Não me fascina particularmente, mas a sua relação amorosa com a câmara é poderosa.



A altivez e glamour distante são as marcas de Garbo. Eu não a considero a mais bela mas é uma das mais, isso é. E a mais misteriosa.
















Citação retirada do livro "Cinema" de Ronald Bergn, de 2008 (o original é de 2006) e editado em Portugal pela Civilização

Grace Kelly, loira gelada mas que faz derreter corações

"A heroína ideial de Hitchcock era a "loira descarada", uma mulher aparentemente formal e respeitável, mas que reagia de modo mais sensual quando estimulada pela paixão ou pelo perigo. Nas próprias palavras de Hitchcock, "senhoras que se tornam prostitutas quando estão no quarto". O seu apelo contrastava com o estilo glamoroso de Marilyn Monroe, apenas abertamente sexual." (Bergan 2008, 306)


Grace Kelly é, de facto, o arquétipo de loira de Hitchcock. Diferentemente de loiras de sensualidade explosiva como Marilyn Monroe e Mae West, Grace Kelly era a loira gelada, reservada, elegante, mas dotada também de uma sensualidade que apenas estava meia ocultada. Ao pé de Audrey Hepburn, Grace Kelly é a atriz mais elegante do cinema dos anos 50. Uma morena, uma loira. As duas magras e sofisticadas. A grade diferença é que enquanto Audrey tem uma beleza próxima das pessoas, Grace Kelly, tendo uma beleza gelada, não desperta uma proximidade tão acentuada com os espectadores.



Talentosa, Grace Kelly conseguiu ganhar um óscar de melhor atriz pelo filme The Country Girl que eu ainda não vi.

Grace não tem exatamente um rosto singular que lhe permita distanciar-se de outras caras, além de que é difícil fazer uma caricatura da sua face quase perfeita. O que posso distinguir é o seu porte altivo. Eu acho Grace Kelly das atrizes mais belas do cinema. Apenas vejo uma imperfeição. O seu queixo. Poderia ter o rosto mais afunilado e menos largo por baixo da boca e das bochechas. Ainda assim, é um deslumbrante rosto.

















Citação retirada do livro "Cinema" de Ronald Bergn, de 2008 (o original é de 2006) e editado em Portugal pela Civilização

Audrey Hepburn, elegância feminina

"Audrey Hepburn (1929-93) foi um antídoto à moda de figuras mais roliças dos anos 50. No seu primeiro filme americano, Férias em Roma (1953), recebeu o Óscar de Melhor Atriz pela sua interpretação como uma incógnita princesa que se apaixona por um jornalista. Como inocente, foi muitas vezes cortejada por homens mais velhos como Humphrey Bogart em Sabrina (1954), Gary Cooper em Love in the Afternoon (1957), e Fred Astaire em Cinderela em Paris (1957) de Stanley Donen. Foi também contratada como Natasha em Guerra e Paz (1956) ao lado do seu primeiro marido, Mel Ferrer, e dou eficaz como freira belga que questiona a fé em História de Uma Freira (1959). Cantou "Moon River" de forma comovente em Boneca de Luxo (1961), mas foi dobrada nas canções de My Fair Lady (1964), apesar de estar arrebatadora no papel. Hepburn é recordada pelo seu sentido de estilo assim como pela sua interpretação." (Bergan 2008, 289)


Audrey, a atriz que interpreta a elegância e fornece aos seus papéis elegantes ainda mais elegância provenientes da sua elegância pessoal. Bem, é bom que muitas raparigas tenham Audrey como modelo. É bonita, tem bom gosto, tem bons modos e não é, de todo, sexual. Tem nível (que puritano). No entanto, e julgo que isto pouco influência, muita gente deveria ter a personalidade de Audrey como modelo. Os seus bons valores de mãe protetora, o seu grande desempenho profissional e a sua vertente altruísta para com os mais necessitados. Audrey era tudo o que o um ser humano bom é: bondosa e trabalhadora. Além disso, a bela magra era também inteligente, conseguindo falar fluentemente 5 línguas. Um ótimo modelo.


Não sou particularmente fascinado pela Audrey, não sei bem porquê. Eu elogiei-a com sinceridade e gosto dos filmes da atriz. Mas ela não me apaixona particularmente. "Sabrina" e "Férias em Roma" são duas maravilhas da sua carreira. "Boneca de Luxo" é, para mim, mais um lixo. Aborrecido, vazio, decadente, melancólico.




Diferentemente de Garbo, Hepburn tinha um glamour que não a distanciava dos espectadores. Ela era uma beleza próxima. Não era vulgar (tem um rosto tão singular) mas a simpatia que deixava transparecer, assim como a sua vulnerabilidade e inocência faziam dela uma mulher facilmente identificável. Era como a rapariga do lado mas com algum dinheiro a mais que o resto dos vizinhos e com bom gosto, que faziam dela uma boneca, e não uma deusa, de luxo.


Olhos grandes, expressivos e amendoados e a sua magreza corporal são a marca física de Audrey.

Citação retirada do livro "Cinema" de Ronald Bergn, de 2008 (o original é de 2006) e editado em Portugal pela Civilização



Judy Garland, a rainha dos musicais

"Nascida Frances Gumm, Judy Garland (1922-69) ganhou um contracto com a MGM aos 13 anos. Teve um sucesso prematuro como Dorothy no famoso Feiticeiro de Oz (1939). Após uma série de musicais "juvenis" com Mickey Rooney, Garland ganhou maturidade em Encontro em St. Louis (1944) do futuro marido Vincente Minnelli. Foi despedida da MGM mas fez um regresso triunfal com Assim Nasce Uma Estrela (1954)." (Bergan 2008, 155)



Já falei bastante da Judy neste blog. Isso mostra o amor que tenho por ela. Na citação acima estão os filmes mais famosos de Judy, o maravilhoso Wizard of Oz, o bom Meet me in Saint Louis, cujo título em Portugal é Não há como a nossa Casa e não Encontro em St. Louis (se bem que prefiro este) e o aborrecido A Star is Born. Desculpem, mas eu acho o filme tão cansativo. Judy faz um papel muito bem desempenhado mas o filme não é de todo fascinante.




Esta pintura é da autoria do fantástico Andy Warhol, o rei da Pop art. Nela estão presentes os dois atributos faciais de Judy que lhe garantem uma imagem poderosa. Os seus carnudos lábios e, o mais importante, os seus grandes e profundos olhos. 

Citação retirada do livro "Cinema" de Ronald Bergn, de 2008 (o original é de 2006) e editado em Portugal pela Civilização


Joan Crawford: de dançarina da MGM a mulher sofrida em Mildred Pierce

"Joan Crawford (1004-1977) foi a estrela principal durante mais de 30 anos. Com as suas ombreiras e boca grande alargada no "The Crawford Smear", retratava por vezes uma mulher que descarrila o que abre caminho até ao topo, sacrificando o amor e a felicidade para permanecer aí."  (Bergan 2008, 151)




Joan Crawford é, sem dúvida, das maiores estrelas de Hollywood. Não está ao nível de popularidade de divas como Katherine Hepburn ou Ingrid Bergman mas fica logo atrás. Já para não falar de que é mais populares que estas no que respeita a fofocas. A possível realização de um filme pornográfico, quando ainda não era conhecida, a rivalidade com Bette Davis e a relação tumultuosa com a sua filha adotiva, Christina Crawford, fazem de Joan uma das estrelas mais faladas do cinema.

Dotada de talento inegável, conquistou o óscar de melhor atriz por "Mildred Pierce" (1946), um noir e melodrama delicioso realizado numa altura em que a estrela estava no estúdio da sua rival, Bette Davis, deixando a MGM, estúdio que a viu crescer e tornar-se uma atriz talentosa, passando de papéis leves para o filme "The Women" (1939), de George Cukor.




Além do talento, Joan Crawford tinha um grande trunfo. O seu rosto. Claro que não era particularmente bonita, mas a sua cara era de tal forma peculiar que a distingue das outras atrizes. Olhos grandes, arregalados, energéticos, ferozes. Sobrancelhas grossas e lábios enormes e rasgados. Chega a parecer, às vezes, um rosto grotesco, agressivo. Mas a força de caráter transmitida pelos olhos compensam e seduzem.

Citação retirada do livro "Cinema" de Ronald Bergn, de 2008 (o original é de 2006) e editado em Portugal pela Civilização

quarta-feira, 15 de julho de 2015

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Easter Parade, nunca vi musical tão colorido



Não vale a pena Wizard of Oz. És um filme maravilhoso, mas Easter Parade consegue ser mais colorido que tu. E tu Singing in the rain, quase que lá chegas. Mesmo assim, Easter Parade é o musical mais colorido de entre aqueles que eu vi. As cores são muitas, se bem que o cor de rosa é a principal cor, além de que as várias tonalidades são por norma fortes, vibrantes.


A cor é importante num musical. Ponto. Não gosto que digam o contrário porque é uma verdade que pouco deve ser questionada. Eu sei, eu sei. A presença do preto e branco dá glamour ao cinema, mas, no caso do musical, a cor confere essa grandiosidade bela. Desculpa Ziegfeld Girl, mas cor é cor e tu, em modo colorido, funcionarias, provavelmente, melhor (bem nem sei, adoro esse musical em preto e branco).



E as músicas? Boas, mas, tirando a própria intitulada "Easter Parade", não são espantosas. "Happy Easter", "I want to go back to Michigan" e "Shakin' the blues away" são bastante agradáveis. A voz de Judy é excelente como quase sempre e Fred Astaire não desilude. E que dizer da maravilhosa Ann Miller. Tão adorável, mimosa. Não percebo como não se tornou uma grande estrela. Ela era a rainha dos filmes B na Columbia e conseguiu dar um passo de gigante e entrar num filme musical da MGM com dois astros do cinema. Além disso, o seu papel é bastante principal apesar de não ser protagonista.


Ann Miller


Ann Miller é melhor dançarina que Ginger Rogers e Rita Hayworth, na minha humilde
opinião. Não é tão bonita mas tem magnetismo, alegria, leveza, sofisticação. Eu adorei vê-la no filme. A minha parte favorita é, aliás, a sua dança ao som de "Shakin' the blues away". Não há nada a dar força ao seu número musical: não há bailarinos, grandes decorados. Ela apenas tem como ajuda o seu belo vestido amarelo. De resto, está por conta própria. Acontece que ela consegue segurar a cena, tornando-a soberba. Dança tão bem! Com energia e sex appeal! Realmente, Judy não faz melhor número que Ann em Easter Parade.




Falando de Judy, ela está maravilhosa em "I want to go back to Michigan". Tão querida em vestido rosa e avental branco, cantando uma canção nostálgica. "A couple of swells" é o número musical mais famoso do filme mas não o meu favorito. É divertido mas a música aborrece. Fred estava relutante em fazer o número, visto ter de se apresentar de mendigo, o que não é habitual na sua imagem, mas aceitou e esteve muito bem.




Eu adoro a Judy, mais do que qualquer outra presença no filme. Mas, para mim, é Fred Astaire quem rouba as atenções. Ele tem o charme, a graça maior do lado dele. Dança como ninguém e também não canta mal. Os números de dança entre ele e Judy deixam a desejar porque ela não é uma grande dançarina. Judy sabe dançar mas não a um nível profissional como Fred. Apesar desta "falha", o par Fred/Judy é um dos meus favoritos no cinema, e apenas fizeram este filme juntos.



Eu gosto de Gene Kelly, que fez dois filmes com Judy (For me and my Girl e Summer Stock), mas, meu deus, Fred é Fred e a simpatia dele em junção com a também simpatia dela fazem do seu único filme juntos uma alegria. E é isso que é o encanto de Easter Parade. É um musical alegre, muito alegre.




A história existe. É uma história relativamente vulgar, uma versão mais pobre de My Fair Lady, embora eu goste mais de Easter Parade do que aquele musical. Não tão vulgar assim, porque não se trata de um triângulo amoroso mas de um quadrado. A coisa é um pouco confusa: Fred gosta de Ann que gosta de Peter Lawford que gosta de Judy que gosta de Fred, sendo que este passa a gostar de Judy e, para ficarem todos felizes, Peter cede ao amor de Ann. História divertida, agradável e acompanhada por belas canções.



Eu prefiro Easter Parade a Meet me in Saint Louis, mas não considero aquele superior a este. Ao nível musical prefiro Meet me in Saint Louis e, sem dúvida, que tem canções de qualidade superior. Ao nível das performances, Easter Parade tem resultados mais elaborados, porque há mais dança. Acontece que Meet me in Saint Louis também fica a ganhar, porque as melodias estão inseridas na história, não ocorrendo em palco. Além de que revelam profundamente o estado de espírito das personagens. No que respeita à história, Easter Parade tem um plot mais recheado, onde acontecem mais coisas mas a seriedade com que Meet me in Saint Louis trata das aventuras da família Smith colocam o sue plot acima de Easter Parade. Simplesmente, Easter Parade diverte mais e, por isso, é o meu favorito.



É diversão pura, com alguma coisa a refletir (não tentar mudar a personalidade de alguém e sim, saber ver vantagem nisso) e uma química maravilhosa entre Fred e Judy. Não se vê desta química em Meet me in Saint Louis.


Eu acho o final maravilhoso, com Judy a cantar para Fred a melodia "Easter Parade" que, supostamente, é cantada por um homem para uma mulher, para, a seguir, percorrerem a fifth avenue em Nova Iorque no meio da parada da Páscoa, onde as mulheres exibem os seus complexos e exuberantes chapéus. John Frike, biógrafo da Judy, disse, no documentário sobre o filme, que as pessoas, ao verem o filme em 1948, quase se levantaram dos seus lugares por ficarem tão estupefactas com a bela visão da avenida cheia de gente. Ora, eu não fico muito entusiasmado com esse final. É bonito, maravilhoso: a melodia, a rua cheia de gente, Fred e Judy apaixonados... Mas eu queria ver mais, mais da avenida, outros ângulos de câmara. Descobri que o final do filme foi rodado em estúdio. Isto quer dizer que Fred e Judy não estão mesmo na fifth avenue da grande cidade mas num cenário. Daí não se poder mostrar muito mais. Eu penso que já desconfiava disso, até porque a maioria dos filmes da era clássica foram filmados em estúdio. Também me desilude o facto de não se ter feito um número mais elaborado com a cena final ao som de "Easter Parade". Vá, é um filme maravilhoso, mesmo assim, e com um final belo e feliz.



Fiquei surpreso ao saber que Louis B Mayer estava apaixonado por Ann Miller e que lhe pediu em casamento na altura ou pouco antes das gravações de Easter Parade. Ela não aceitou, sendo que, se não estou em erro, estava casada na altura. Ann faria outro filme de sucesso na MGM, On the Town no ano seguinte. Um musical ainda melhor, mas onde o seu encanto não é tão grande como em Easter Parade. Judy queria fazer papéis glamorosos e raramente teve essa oportunidade. Aqui, mais uma vez, ela é a jovem que não tem sofisticação mas tem bom coração. É um pouco injusto até porque Ann Miller não é muito mais elegante que Judy, além de que não é mais bela. Judy podia fazer o papel de Nadine em vez de Ann. É me estranho imaginar porque eu não estou habituado a ver Judy como a rapariga glamorosa mas se Ann fez, ela em princípio daria uma convincente Nadine.




Easter Parade foi um sucesso. É um filme feliz que reuniu Judy e Fred de uma maneira não tão feliz mas com resultados felizes. Gene Kelly seria, em princípio, o ator principal mas partiu uma clavícula a jogar basebol e foi substituído por Fred. Cyd Charisse seria Nadine mas magoou-se numa perna e foi Ann que ficou com o papel. Elenco não planeado mas que é um ponto positivo neste filme colorido do género colorido que é o musical.




domingo, 12 de julho de 2015

Meet me in Saint Louis (1944), um musical refletor de crises familiares e do valor da família



Eu vi Meet me in Saint Louis antes de Easter Parade e as minhas expectativas eram enormes. Este musical atrativo com aquela casa vitoriana ao estilo playmobil ea família Smith com vestes de época ao estilo "bonecos da casa de brincar" são um prazer para os olhos. Estamos a falar de um musical realizado por Vincent Minnelli e isso significa bom gosto ao nível musical e visual, onde as cores berrantes se combinam de forma harmoniosa e esquisita.

 Era um musical que eu queria muito ver, dada a sua aparente beleza, e por ser tão amado por tanta gente. Além disso, eu amava, e amo, a música "The trolley song", já para não mencionar o factor principal que me levou a querer ver o filme: Judy Garland.








A família Smith




Ora bem, a primeira vez que o vi, em finais de 2014, fiquei um pouco decepcionado. Eu não achei que fosse um mau musical, mas cansou-me um bocado, dada a sua lentidão ao nível de desenvolvimento da história, além de me ter levado a pensar que o filme não tinha exatamente um plot. Valeram as músicas, as boas interpretações e os cenários maravilhosos.

Pois bem, voltei a ver o filme, querendo dar-lhe outra oportunidade. E não me arrependi. Eu tinha visto de novo, muito recentemente, Easter Parade. Quando vi esse musical da MGM pela primeira vez, em inícios de 2015, fiquei contente com o que vi. Eu andava desencantado com a filmografia da Judy. Nenhum musical correspondia às minhas expectativas (A Star is born, Meet me in Saint LouisSummer Stock) e Easter Parade superou-as. Não que ele seja uma jóia soberba dos musicais, mas porque as minhas expectativas estavam, ao contrário do que aconteceu com os outros filmes, bastante medianas. Acontece que Easter Parade é realmente agradável e, com o segundo visionamento, eu gostei ainda mais desse filme. Desta forma, decidi voltar a ver Meet me in Saint Louis para poder comparar com Easter Parade. Mesmo antes de os rever, eu coloquei Meet me in Sant Louis na lista dos 50 filmes que mais gosto e Easter Parade ficou de fora. Isto porque eu estava convencido que iria gostar, caso visse de novo, mais de Meet me in Saint Louis do que o filme sobre a Páscoa. Isso não aconteceu. Eu realmente prefiro Easter Parade. Acontece que isso não significa que este seja um filme superior a Meet me in Saint Louis. E não é mesmo. O filme de Minnelli é superior, pois ultrapassa o mero objetivo de entreter. Easter Parade é o filme mais belo a nível de cor, vivo e vibrante. As músicas são boas e as interpretações também. No entanto, Meet me in Saint Louis é quase melhor em tudo.


Eu fui pouco sensível à história da família Smith quando vi o filme pela primeira vez. Agora decidi tomar uma perspectiva mais contemplativa e calma, analisando e envolvendo-me numa vida quotidiana familiar dentro de uma bela casa. O filme fala da família e das ameaças à sua união. Isto é um tema muito importante, tocante, doce e facilmente suscitador de identificação. A família Smith é grande e isso permite reforçar a união entre os seus membros. Todas as gerações são amigas: o avô, o casal de meia idade, as filhas mais velhas, o filho mais velho e as crianças Agnes e Tottie, incluindo também a cozinheira e o gato de estimação. É muita harmonia. A casa é aconchegante e bela. É um mundo de contos de fadas, onde Judy canta alegremente junto da sua família. Isto é o filme em quase toda a sua duração.



 Quando ele começa a perder força, surge a ameaça: a ida da família para Nova Iorque. Agora a harmonia familiar está enfraquecida. Andam todos tristes, tentando manter a boa ambiência. As paredes vermelhas da casa já não são tão calorosas, mesmo em contraste com o frio e neve do inverno. Como se não bastasse assistir a esta dolorosa crise familiar, ainda temos de assistir ao transtorno em plena época natalícia.


Felizmente as coisas resolvem-se. A família volta a ficar unida em Saint Louis.


A história é simples mas tocante e, pensando bem, não é assim tão simples. Tootie, interpretada pela querida e talentosa Margaret O'Brien é uma criança mórbida e, depois de ouvir a sua irmã Esther, interpretada por Judy, a cantar "Have yourself a merry little Christmas", corre para o jardim e decapita os seus bonecos de neve em completo desespero por não se querer mudar para Nova Iorque. Esta cena é aflitiva, desconcertante. E ainda mais assim é, porque acabámos de escutar a citada balada cantada por Judy. Embora esta quebra de melancolia para ira aconteça, o sentimento de tristeza mantém-se, o que causa lágrimas no espectador (eu pelo menos quase chorei). A revolta de Tootie é grande e  o seu lado mórbido é claramente manifestado. Esta cena faz com que o pai de família, encarnado por Leon Ames, mude ideias e decida ficar em Saint Louis.


Imagem retirada do site http://theblondeatthefilm.com/2013/12/19/meet-me-in-st-louis-1944/


A música e o aspeto visual são o forte da história, mas esta não deve ser rebaixada como eu fiz. "The trolley song", "Meet me in Saint Louis" e "Have yourself a merry little Christmas" são muito agradáveis e as cores do filme quentes e hipnotizantes. Vale dizer, todavia, que este musical não é dos mais fortemente coloridos. As cores são meias outonais e não variam muito. Já para não falar do lado sombrio do musical, aspeto pouco presente neste género cinematográfico. A cena do Halloween, estranha e indicadora de que aquela brincadeira de crianças é mais do que isso, pode significar a tentativa das crianças superarem os seus medos na vida real. Tootie não superou a possibilidade de se mudar para Nova Iorque, infelizmente. Minnelli viu a possibilidade de se retirar a sequência do Halloween do filme mas o realizador tinha feito este filme precisamente por essa cena. Conseguiu fazer com que ficasse e, sem dúvida, que é uma cena interessante. A alegria da primeira parte do filme, com Judy a cantar no trolley repleto de cores vivas contrasta com a negrura da cena do Halloween, o que pode ser um presságio da aproximação do conflito presente na casa Smith: a ida para Nova Iorque.



 As interpretações são todas muito boas. Judy não queria fazer o papel de Esther, a segunda filha mais velha, por estar cansada de fazer de raparigas adolescentes. A jovem estava crescida e queria interpretar mulheres. Ainda bem que Judy aceitou dar vida a Esther, não fosse esta um dos seus papéis mais famosos e apreciados. Ela está tão viva, alegre, sentimental, doce para sua irmã Tootie. Judy não se achava bonita e, com este filme, ela ficou muito animada ao considerar-se bela pela primeira vez num filme. Ok, não acho. A sua beleza já havia sido evidenciada em Babes on Boadway e noutros filmes. Eu não gosto do seu penteando em Meet me in Saint Louis. Este não a favorece. Agora, entendo o seu fascínio pela sua personagem. É uma das sua primeiras personagens glamorosas e isso é importante para uma jovem insegura. Foi com este filme que Judy conheceu Minnelli e os dois se apaixonaram. Casariam em 1945. Liza Minnelli, filha dos dois, notou como Minnelli revela o seu amor por Judy ao longo de todo o filme. A própria Liza mencionou o facto de Minnelli enquadrar a sua mãe através da moldura de janelas como se ela fosse uma mulher pintada num quadro: uma obra de arte, portanto.

















Judy Garland como se estivesse enquadrada num quadro: uma obra de arte! Feminina e encantadora, apoiada pelas flores e pelas cortinas brancas que a abençoam




Foto retirada de http://theblondeatthefilm.com/2013/12/19/meet-me-in-st-louis-1944/



Leon Adams está óptimo. Severo, rabugento mas não menos carinhoso. Mary Astor perfeita. Gosto mais dela neste papel de esposa e mãe de família do que no seu papel de femme fatale em The Maltese Falcon. Astor é uma boa atriz. Mas considero-a um pouco apagada. Não é sexy para uma mulher típica dos filmes noir, se bem que o seu papel em The Maltese Falcon não exija muita sensualidade. Em Meet me in Saint Louis ela está tão bem. Está mesmo carinhosa para as suas filhas.



Leon Adams
































Mary Astor (em cima) com Margaret O'Brien e (em baixo) com Lucille Bremer e Judy Garland




Margaret O'Brien é queria mas por vezes irrita-me. Claro que é uma boa atriz, mas por vezes cansa-me. A irmã que faz de Agnes, Joan Carroll, é expressiva e tem boa química com Margaret O'Brien. Harry Davenport e Lucille Bremer estão igualmente bem. Eu tenho pena que Bremer não se tenha tornado uma grande estrela. Ela é bonita e faz um bom papel. Mais ajuízada e sensual que Esther, a sua Rose é uma das minhas personagens favoritas. Marjorie Maine, que faz de empregada, também está bem com as suas respostas duras e ao mesmo tempo engraçadas, revelando também ser tratada basicamente como um membro da família.



Margaret O'Brien e Judy Garland




Joan Carroll



Harry Davenport e Judy Garland no seu maravilhoso vestido vermelho (nesta cena ela está bem bonita)





Lucille Bremer




Marjorie Maine



O filme foi um sucesso, o maior da MGM desde Gone with the Wind, não ultrapassando este épico. Um filme estranho, belo, onde alegria e medo, insegurança e tristeza se chocam num retrato realista de uma família que parece viver numa maravilhosa casa de bonecas. E como em qualquer casa de bonecas, a alegria é a grando vencedora.

Foto retirada de http://theblondeatthefilm.com/2013/12/19/meet-me-in-st-louis-1944/

É Esther quem olha para o vizinho mas quem olhava através da câmara, Minnelli, é que estava realmente apaixonado pela doce rapariga enquadrada pela janela da casa de bonecas